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A tecnologia está nos emburrecendo?
26/04/2019 10:40 em Tecnologia

Para um ex-Google conhecido como a 'consciência do Vale do Silício', estamos correndo o risco de nos tornar obsoletos. E está na hora de mudar o jogo.O ex-Google estava ocupado dando palestras, aparecendo em podcasts, aconselhando o congresso americano, participando de painéis e posando para fotógrafos. O núcleo de sua evangelização – que a revolução digital foi de ser capaz de expandir nossas mentes para tomá-las de assalto – chegou ao zeitgeist; talvez até ajudou a definí-lo.Éramos sedentos por curtidas, retweets e compartilhamentos, e nosso vício estava nos tornando distraídos e deprimidos. A própria democracia estava desmoronando. Harris desenvolveu uma série de pensamentos que ficaram famosos o bastante para se tornarem clichés. “As pessoas por trás da tela têm muito mais poder do que quem está na frente dela”, disse, resumindo o impacto dos engenheiros. Ele abordou a capacidade da tecnologia poder manipular nossos instintos mais básicos como a “corrida até a base do tronco cerebral”. O problema? “A economia da atenção”.

De forma mais significativa, ele popularizou as seguintes três palavras: tempo bem gasto. Algo que se transformou em um grito de guerra para quem discutia a necessidade de evitarmos nossos smartphones de tempos em tempos. Em fevereiro de 2018, Harris fundou o Center for Humane Technology. E desde então, estranhamente, ele desapareceu.

O que rolou? Bom, acontece que ele apostou no anonimato para aprimorar suas ideias. Hoje Harris está de volta à esfera pública, um retorno que, em parte, ocorre porque ele acredita que suas velhas máximas – as palavras em si – eram frias e insuficientes. Falar sobre a economia da atenção e tempo bem gasto não impeliu a capacidade tecnológica de desmontar o livre arbítrio e criar anomalias sociais. É um papo que não considera os riscos que aumentam com o aprimoramento de inteligências artificiais e a popularização de deepfakes. Harris diz que a linguagem molda a realidade, e projeta que o jeito que descrevemos o impacto real da tecnologia é insuficiente para ilustrar a tempestade a caminho. Então, há alguns meses, ele cobriu seu escritório com papel branco e começou a rabiscar ideias em tinta negra.


Ele ensaiou frases, fez desenhos, colocou tudo em letras garrafais. Sua busca era pela combinação ideal de palavras, uma base conceitual que pudesse ajudar a reverter as tendências que estão dividindo nossa sociedade. “Há uma espécie de cacofonia de ressentimentos e escândalos na indústria tech”, diz. “Mas não há uma agenda coerente nem um acordo sobre o que exatamente está errado, o que precisamos fazer, o que queremos”, conclui.

Seu brainstorming era quase insano: um pouco Don Draper, um pouco Carrie Mathison e, em parte, aquela vez que Russell Crowe interpretou John Nash em Uma Mente Brilhante. Ele e seu colega, Aza Raskin, desceram ao Esalen Institute no Big Sur, Califórnia, e cobriram seu quarto de papel. Eles voltaram para São Francisco, e fizeram o mesmo, rabiscando frases e listas de problemas causados pela tecnologia. Vício. Fake News. Populismo em alta. Havia um desenho de um cervo iluminado por faróis. Harris fez um tour recente com a Wired por suas anotações via videoconferência, andando pelo cômodo e lendo das paredes: “E se você tivesse um capacete tech? Alinhando seus instintos paleolíticos à ortodontia; um headgear humano para a adolescência tecnológica. Um visor paleolítico. Mastigando nós mesmos para que possamos processar nossos maiores problemas."

https://gq.globo.com/Prazeres/Tecnologia/noticia/2019/04/tecnologia-esta-nos-emburrecendo.html

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